Charges ‘mal’ditas
Março 23, 2009 at 6:28 pm | In Entrevistas, Internacional | Leave a CommentTags: charges do profeta Maomé, charges polêmicas, Imprensa escandinava, jornal dinamarquês Jyllands Posten, Jyllands Posten, liberdade de imprensa, Lourival Sant’Anna, Mohammed, o caso das charges ridicularizando Maomé, Oriente Médio
Leonardo Siqueira e Matheus Cardoso

A veiculação de doze charges polêmicas sobre o profeta Maomé gerou revolta em todo o mundo. O conteúdo publicado em setembro de 2005 pelo jornal dinamarquês Jyllands Posten desencadeou uma série de protestos. Um grupo de palestinos armados exigiu um pedido de desculpas à representação da União Européia na Faixa de Gaza. Na Arábia Saudita, a representação do profeta provocou o boicote dos produtos dinamarqueses.
O que falta para um diálogo pacífico entre “mundos” tão diferentes? Quais os desafios éticos do conceito de liberdade de imprensa? Para o jornalista Lourival Sant’Anna a publicação do material agrediu um valor maior, o respeito ao sagrado ou o que as pessoas consideram sagrado. Segundo ele, mesmo a defesa da liberdade de expressão, como pretendeu a imprensa escandinava, foi feita de forma gratuita e leviana.
Lourival Sant’Anna é jornalista e repórter especial para O Estado de São Paulo. Ele trabalhou na BBC de Londres e CNN. No Estado, ocupou as funções de editorialista e editor-chefe. Além disso, Sant’Anna foi o primeiro jornalista no Brasil e o segundo em todo o mundo a entrar no Afeganistão após o 11 de setembro. É casado e tem duas filhas.
Quais os desafios éticos e deontológicos do conceito de liberdade de imprensa, em especial, no caso da publicação das doze charges sobre o profeta Maomé?
Lourival Sant’Anna – No caso do exemplo citado, vemos essa contraposição clássica entre liberdade de imprensa, por um lado, e direitos de um setor da sociedade, por outro. No caso da sociedade mundial, os muçulmanos são mais conservadores e observam o Alcorão com mais dedicação. Esse é um dilema com o qual nos defrontamos. Em todos os escândalos de corrupção que estamos cobrindo aqui no Brasil, temos o direito à informação, liberdade de expressão, e, por outro lado, o direito à privacidade, à defesa e a um trâmite jurídico normal, em que o acusado pode se defender.
No caso das charges, houve um conflito de civilizações e valores. Os jornalistas da Escandinávia queriam ter o direito a tocar em qualquer assunto e falar livremente sobre qualquer tema, mesmo que fosse a religião muçulmana. É possível compreender isoladamente essa atitude como uma posição de afirmação da liberdade. Mas, por outro lado, isso pode intensificar o conflito entre Ocidente e o mundo islâmico. Sobre isso, não há uma regra, mas um juízo “caso a caso”. É preciso pesar o direito à livre expressão e a não ter seus valores legítimos ou sentimentos religiosos agredidos. Ver qual dos valores é mais importante defender quando há um conflito entre os dois direitos e qual a melhor maneira para fazer isto. No meu entender, no caso das charges se defendeu a liberdade de forma gratuita e se perdeu a razão. Se a causa era da liberdade de expressão, o caso foi perdido porque ela foi mal reivindicada, e de forma leviana. Uma charge pode não ser publicada, considerando-se um valor maior, o respeito ao sagrado ou o que as pessoas consideram sagrado. Nesse caso os sentimentos religiosos de um determinado grupo se sobrepunham a essa forma de defesa da liberdade de expressão. Embora ela também seja um valor vital e central na nossa sociedade e pode ser defendida de uma forma inteligente, mais elegante e menos agressiva.
No caso das charges, é difícil imaginar que o jornalista dinamarquês tenha agido ingenuamente ao ligar a imagem do profeta ao terrorismo.
LS – Seguramente eles não esperavam tantas mortes e uma repercussão tão grande como aquela. Aqui eu faço uma ressalva, o que eu disse na época – e continuo pensando assim – é que as mortes se deveram à forma de os países do Oriente Médio lidarem com as manifestações populares. Elas ocorreram, em geral, por causa da repressão policial. São países autoritários, que não sabem lidar com manifestações e podem facilmente extravasar protestos contra os regimes e governos locais. Facilmente se politizam porque se tratam de ditaduras que muitas vezes são alvo de uma forte oposição justamente por parte dos movimentos fundamentalistas religiosos. Não se pode culpar o chargista ou o jornal pelas mortes diretamente. Eu penso que a principal responsabilidade pelas mortes decorre da repressão política que existe nesses países. No Ocidente, as manifestações dos muçulmanos não resultaram em tragédias. Então, é preciso ter cuidado em relação a isso também. É possível associar pessoas que tentam utilizar a religião e a utilizam para fins políticos e terroristas para o terrorismo. Mas não ao profeta e pessoas que, provavelmente, não tiveram a intenção de incitar o terrorismo.
É possível conciliar liberdade de imprensa, democracia e religião, principalmente no contexto do Oriente Médio?
LS – No Oriente Médio, hoje é impossível ter democracia, porque o estágio cultural e político no qual essas sociedades se encontram não são condizentes com os valores da democracia e da liberdade.
No livro Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, Eduardo Said sugere que, ao longo de toda a história moderna o Oriente é retratado de forma distorcida e exótica. Por que, apesar da globalização da informação, essa imagem continua?
LS - Eu não concordo muito com as teses dele. Seja de forma geral ou com a idéia de que a visão que as pessoas têm do oriente é distorcida. Mas é natural que haja essa distorção. As ferramentas que nós temos e que uma sociedade tem para entender a outra são as ferramentas próprias dessa sociedade. Também no Oriente, o Ociente é muito mal-interpretado. Talvez o Oriente seja um conceito amplo demais, mas nos países do Oriente Médio, a visão que se tem do Ocidente é bastante deturpada. É natural que seja assim.
Uma característica própria da charge é o exagero de alguns aspectos físicos em detrimento de outros, o que leva, muitas vezes, o desenho a uma distorção da realidade. As charges do profeta Muhammad refletem uma visão distorcida que muitos têm sobre o Oriente Médio ou uma discriminação quanto a uma cultura diferente da nossa?
LS – Eu penso que as charges são o resultado de uma constatação: de que a religião islâmica está sendo utilizada por grupos cada vez mais representativos no Oriente Médio. O objetivo, quase sempre, serve para justificar atos violentos. Essa é realmente uma visão ocidental, porque, sempre que essas ações terroristas são anunciadas, elas vêm fortemente associadas a valores religiosos. Em parte, a responsabilidade por isso é dos próprios autores desses atentados terroristas e das lideranças religiosas muçulmanas moderadas que não denunciam os atentados nem os dissociam da sua religião.
No ocidente, a mulher geralmente é caracterizada como vítima do sistema religioso islâmico. A burca, por exemplo, na visão ocidental seria um exemplo do regime opressor e autoritário do islã. O que vemos na mídia, no caso das mulheres, é uma representação real do oriente?
LS – O Oriente não é algo monolítico, homogêneo. Mesmo se você entrar em determinados países como Afeganistão ou Paquistão, ainda existem mulheres com este costume. No caso do Afeganistão, elas usavam a burca por uma imposição do regime taleban, e não por parte de seu marido ou seus pais. Era uma imposição política. E outra parte das mulheres já usava burca antes do taleban e continuou usando depois. Então, é preciso diferenciar esses dois tipos de mulheres. Há mulheres lá que se sentiriam nuas sem a burca na rua, e há mulheres que se sentiriam oprimidas porque aquilo causa muito calor e dificuldade de se movimentar. É preciso diferenciar as mulheres que usam burca porque isso é natural para elas. Os pais ensinaram assim, o marido valoriza e a mulher a tem como algo que pertence a ela, como algo que lhe valoriza e protege. Por outro lado, há aquelas que usam por opressão e obrigação.
Hoje se fala bastante em choque de civilizações. O que falta para um diálogo pacífico entre “mundos” tão diferentes?
LS – É necessário que as forças moderadas focalizem mais e falem mais, porque as agendas estão sendo guiadas por forças radicais. Tanto no caso dos Estados Unidos, liderados pelo presidente Bush, quanto no caso do Oriente Médio, liderados pela Al-Kaeda e grupos associados a ela. Os moderados dos dois lados, principalmente no Oriente Médio, estão alienados. Mas também no Ocidente durante bastante tempo ficaram alienados. Agora que voltam a ter mais voz, quando se revela o erro que foi a invasão ao Iraque. É importante que no Oriente Médio, as forças moderadas – que são a maioria, não se iluda – se sentem alienadas porque, quando se pronunciam, parece que estão traindo a religião. É preciso escolher entre o radicalismo oriental e o ocidental. Esse é o falso dilema que se colocou. Então, os moderados não podem se manifestar porque pareceria que estão no lado do Ocidente. Por isso é preciso encontrar esse ponto de equilíbrio, que eu continuo acreditando que representa a vasta maioria, tanto no Ocidente quanto no Oriente.
Muitos apelaram ao princípio da liberdade de imprensa ao publicarem as charges sobre o profeta Maomé. Até que ponto nós devemos lutar por este princípio sem incorrer em uma espécie de “fundamentalismo”?
LS – Em primeiro lugar, é preciso conhecer o Oriente. Depois de conhecer o local, fazer amizades e colher depoimentos não é possível trair a sinceridade dessas pessoas. A menos que você seja um crápula. Porque você encontra pessoas comuns, iguais a você. Em segundo lugar, é necessário ser responsável, ou seja, não utilizar preconceitos ou protótipos para entender esses países. Mas buscar uma abordagem mais profunda, histórica e cultural para se compreender o que se passa quanto aos sentimentos dessas pessoas.
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