Charges ‘mal’ditas
Março 23, 2009 at 6:28 pm | In Entrevistas, Internacional | Leave a CommentTags: charges do profeta Maomé, charges polêmicas, Imprensa escandinava, jornal dinamarquês Jyllands Posten, Jyllands Posten, liberdade de imprensa, Lourival Sant’Anna, Mohammed, o caso das charges ridicularizando Maomé, Oriente Médio
Leonardo Siqueira e Matheus Cardoso

A veiculação de doze charges polêmicas sobre o profeta Maomé gerou revolta em todo o mundo. O conteúdo publicado em setembro de 2005 pelo jornal dinamarquês Jyllands Posten desencadeou uma série de protestos. Um grupo de palestinos armados exigiu um pedido de desculpas à representação da União Européia na Faixa de Gaza. Na Arábia Saudita, a representação do profeta provocou o boicote dos produtos dinamarqueses.
O que falta para um diálogo pacífico entre “mundos” tão diferentes? Quais os desafios éticos do conceito de liberdade de imprensa? Para o jornalista Lourival Sant’Anna a publicação do material agrediu um valor maior, o respeito ao sagrado ou o que as pessoas consideram sagrado. Segundo ele, mesmo a defesa da liberdade de expressão, como pretendeu a imprensa escandinava, foi feita de forma gratuita e leviana.
Lourival Sant’Anna é jornalista e repórter especial para O Estado de São Paulo. Ele trabalhou na BBC de Londres e CNN. No Estado, ocupou as funções de editorialista e editor-chefe. Além disso, Sant’Anna foi o primeiro jornalista no Brasil e o segundo em todo o mundo a entrar no Afeganistão após o 11 de setembro. É casado e tem duas filhas.
Quais os desafios éticos e deontológicos do conceito de liberdade de imprensa, em especial, no caso da publicação das doze charges sobre o profeta Maomé?
Lourival Sant’Anna – No caso do exemplo citado, vemos essa contraposição clássica entre liberdade de imprensa, por um lado, e direitos de um setor da sociedade, por outro. No caso da sociedade mundial, os muçulmanos são mais conservadores e observam o Alcorão com mais dedicação. Esse é um dilema com o qual nos defrontamos. Em todos os escândalos de corrupção que estamos cobrindo aqui no Brasil, temos o direito à informação, liberdade de expressão, e, por outro lado, o direito à privacidade, à defesa e a um trâmite jurídico normal, em que o acusado pode se defender.
No caso das charges, houve um conflito de civilizações e valores. Os jornalistas da Escandinávia queriam ter o direito a tocar em qualquer assunto e falar livremente sobre qualquer tema, mesmo que fosse a religião muçulmana. É possível compreender isoladamente essa atitude como uma posição de afirmação da liberdade. Mas, por outro lado, isso pode intensificar o conflito entre Ocidente e o mundo islâmico. Sobre isso, não há uma regra, mas um juízo “caso a caso”. É preciso pesar o direito à livre expressão e a não ter seus valores legítimos ou sentimentos religiosos agredidos. Ver qual dos valores é mais importante defender quando há um conflito entre os dois direitos e qual a melhor maneira para fazer isto. No meu entender, no caso das charges se defendeu a liberdade de forma gratuita e se perdeu a razão. Se a causa era da liberdade de expressão, o caso foi perdido porque ela foi mal reivindicada, e de forma leviana. Uma charge pode não ser publicada, considerando-se um valor maior, o respeito ao sagrado ou o que as pessoas consideram sagrado. Nesse caso os sentimentos religiosos de um determinado grupo se sobrepunham a essa forma de defesa da liberdade de expressão. Embora ela também seja um valor vital e central na nossa sociedade e pode ser defendida de uma forma inteligente, mais elegante e menos agressiva.
No caso das charges, é difícil imaginar que o jornalista dinamarquês tenha agido ingenuamente ao ligar a imagem do profeta ao terrorismo.
LS – Seguramente eles não esperavam tantas mortes e uma repercussão tão grande como aquela. Aqui eu faço uma ressalva, o que eu disse na época – e continuo pensando assim – é que as mortes se deveram à forma de os países do Oriente Médio lidarem com as manifestações populares. Elas ocorreram, em geral, por causa da repressão policial. São países autoritários, que não sabem lidar com manifestações e podem facilmente extravasar protestos contra os regimes e governos locais. Facilmente se politizam porque se tratam de ditaduras que muitas vezes são alvo de uma forte oposição justamente por parte dos movimentos fundamentalistas religiosos. Não se pode culpar o chargista ou o jornal pelas mortes diretamente. Eu penso que a principal responsabilidade pelas mortes decorre da repressão política que existe nesses países. No Ocidente, as manifestações dos muçulmanos não resultaram em tragédias. Então, é preciso ter cuidado em relação a isso também. É possível associar pessoas que tentam utilizar a religião e a utilizam para fins políticos e terroristas para o terrorismo. Mas não ao profeta e pessoas que, provavelmente, não tiveram a intenção de incitar o terrorismo.
É possível conciliar liberdade de imprensa, democracia e religião, principalmente no contexto do Oriente Médio?
LS – No Oriente Médio, hoje é impossível ter democracia, porque o estágio cultural e político no qual essas sociedades se encontram não são condizentes com os valores da democracia e da liberdade.
No livro Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, Eduardo Said sugere que, ao longo de toda a história moderna o Oriente é retratado de forma distorcida e exótica. Por que, apesar da globalização da informação, essa imagem continua?
LS - Eu não concordo muito com as teses dele. Seja de forma geral ou com a idéia de que a visão que as pessoas têm do oriente é distorcida. Mas é natural que haja essa distorção. As ferramentas que nós temos e que uma sociedade tem para entender a outra são as ferramentas próprias dessa sociedade. Também no Oriente, o Ociente é muito mal-interpretado. Talvez o Oriente seja um conceito amplo demais, mas nos países do Oriente Médio, a visão que se tem do Ocidente é bastante deturpada. É natural que seja assim.
Uma característica própria da charge é o exagero de alguns aspectos físicos em detrimento de outros, o que leva, muitas vezes, o desenho a uma distorção da realidade. As charges do profeta Muhammad refletem uma visão distorcida que muitos têm sobre o Oriente Médio ou uma discriminação quanto a uma cultura diferente da nossa?
LS – Eu penso que as charges são o resultado de uma constatação: de que a religião islâmica está sendo utilizada por grupos cada vez mais representativos no Oriente Médio. O objetivo, quase sempre, serve para justificar atos violentos. Essa é realmente uma visão ocidental, porque, sempre que essas ações terroristas são anunciadas, elas vêm fortemente associadas a valores religiosos. Em parte, a responsabilidade por isso é dos próprios autores desses atentados terroristas e das lideranças religiosas muçulmanas moderadas que não denunciam os atentados nem os dissociam da sua religião.
No ocidente, a mulher geralmente é caracterizada como vítima do sistema religioso islâmico. A burca, por exemplo, na visão ocidental seria um exemplo do regime opressor e autoritário do islã. O que vemos na mídia, no caso das mulheres, é uma representação real do oriente?
LS – O Oriente não é algo monolítico, homogêneo. Mesmo se você entrar em determinados países como Afeganistão ou Paquistão, ainda existem mulheres com este costume. No caso do Afeganistão, elas usavam a burca por uma imposição do regime taleban, e não por parte de seu marido ou seus pais. Era uma imposição política. E outra parte das mulheres já usava burca antes do taleban e continuou usando depois. Então, é preciso diferenciar esses dois tipos de mulheres. Há mulheres lá que se sentiriam nuas sem a burca na rua, e há mulheres que se sentiriam oprimidas porque aquilo causa muito calor e dificuldade de se movimentar. É preciso diferenciar as mulheres que usam burca porque isso é natural para elas. Os pais ensinaram assim, o marido valoriza e a mulher a tem como algo que pertence a ela, como algo que lhe valoriza e protege. Por outro lado, há aquelas que usam por opressão e obrigação.
Hoje se fala bastante em choque de civilizações. O que falta para um diálogo pacífico entre “mundos” tão diferentes?
LS – É necessário que as forças moderadas focalizem mais e falem mais, porque as agendas estão sendo guiadas por forças radicais. Tanto no caso dos Estados Unidos, liderados pelo presidente Bush, quanto no caso do Oriente Médio, liderados pela Al-Kaeda e grupos associados a ela. Os moderados dos dois lados, principalmente no Oriente Médio, estão alienados. Mas também no Ocidente durante bastante tempo ficaram alienados. Agora que voltam a ter mais voz, quando se revela o erro que foi a invasão ao Iraque. É importante que no Oriente Médio, as forças moderadas – que são a maioria, não se iluda – se sentem alienadas porque, quando se pronunciam, parece que estão traindo a religião. É preciso escolher entre o radicalismo oriental e o ocidental. Esse é o falso dilema que se colocou. Então, os moderados não podem se manifestar porque pareceria que estão no lado do Ocidente. Por isso é preciso encontrar esse ponto de equilíbrio, que eu continuo acreditando que representa a vasta maioria, tanto no Ocidente quanto no Oriente.
Muitos apelaram ao princípio da liberdade de imprensa ao publicarem as charges sobre o profeta Maomé. Até que ponto nós devemos lutar por este princípio sem incorrer em uma espécie de “fundamentalismo”?
LS – Em primeiro lugar, é preciso conhecer o Oriente. Depois de conhecer o local, fazer amizades e colher depoimentos não é possível trair a sinceridade dessas pessoas. A menos que você seja um crápula. Porque você encontra pessoas comuns, iguais a você. Em segundo lugar, é necessário ser responsável, ou seja, não utilizar preconceitos ou protótipos para entender esses países. Mas buscar uma abordagem mais profunda, histórica e cultural para se compreender o que se passa quanto aos sentimentos dessas pessoas.
O cinema do copyleft
Agosto 20, 2008 at 2:51 am | In Cinema, Entrevistas | 1 CommentTags: Cinema, Copyleft, Entrevistas, Pirataria
Leonardo Siqueira e Suellen Timm
Entrevista publicada originalmente na revista eletrônica Canal da Imprensa e republicada no Observatório da Imprensa e no site do Ministério da Cultura
Baixar filmes não é novidade para ninguém. A internet revolucionou a história do cinema. A dis
cussão é tanta, que surgiu o Creative Commons, licenças que permitem aos detentores de copyright disponibilizar ao público a sua produção. Uma filosofia de copyleft. No entanto, seria essa mudança sensata? Baixar filmes é considerado crime ou pirataria? Ou seria uma forma de fazer com que mais pessoas tenham acesso a produção? Em entrevista ao Canal da Imprensa, o autor do livro Direitos autorais na internet e o uso de obras alheias, Sérgio Branco, fala sobre as polêmicas questões que afetam o cinema.
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De que maneira a internet mudou o rumo do cinema?
Sérgio Branco – As novas tecnologias democratizaram a produção, a distribuição e, conseqüentemente, o acesso a obras cinematográficas. Antes, apenas as produtoras de cinema tinham condições de fazer filmes, pois os equipamentos eram muito caros. Hoje, é bem mais barato, simples e fácil fazer um filme. A internet possibilita a distribuição de diversas obras que antes ficavam engavetadas e esquecidas. Além disso, permite o acesso e o compartilhamento de obras audiovisuais de uma forma jamais pensada. Também existe grande diversificação de temas e não estamos mais condenados a termos apenas acesso ao blockbuster.
O cinema brasileiro é tachado como inferior e de má qualidade. A que se deve isso?
S.B. – Acho que não é mais assim. O cinema tinha essa imagem em razão de boa parte dos filmes dos anos 70 e 80, quando era muito comum termos roteiros fracos, histórias simplórias, direção de elenco muitas vezes sofrível. Nos últimos anos, o cinema brasileiro deu um grande salto de qualidade inclusive na parte técnica. Filmes como Central do Brasil, Cidade de Deus, Tropa de Elite e Santiago vêm sendo reverenciados no mundo inteiro como obras de grande qualidade.
Como evitar a pirataria? Existe alguma medida adotada para isso? O que os especialistas dizem?
S.B. – As pessoas entendem a pirataria como um fenômeno isolado, mas essa é a pior forma de abordar o problema. A pirataria traz questões econômicas, sociais e culturais. Ainda não está provado que a pirataria pode acabar com a carreira de uma obra. Pelo contrário, vários são os exemplos de obras que foram muito bem sucedidas comercialmente após terem lícita (como o primeiro CD do Arctic Monkeys) ou ilicitamente (como Tropa de Elite) se tornado disponíveis ao público gratuitamente (no primeiro caso) ou a preços abaixo do mercado formal (no segundo).
Além disso, o grande problema hoje que a indústria cultural enfrenta é que seu modelo de negócios está baseado em práticas de meados do século passado. No entanto, com o advento da cultura digital nos últimos 10 ou 12 anos, tornou-se indispensável rever o modelo de negócios praticados. A indústria da música se deu conta disso tardiamente. Para a indústria do cinema, ainda há tempo. A mudança do modelo de negócio é um dos caminhos mais prováveis para a diminuição da pirataria.
De que forma a pirataria fortalece as pequenas produções haja vista a limitação de muitas iniciativas que não dispõem de recursos financeiros?
S.B. – Um dos grandes problemas do audiovisual é a distribuição – algumas vezes é esse problema muito maior do que a produção em si. As pessoas confundem pirataria com cópia privada e acesso. Devemos entender como pirataria a venda de filmes em camelôs com intuito de lucro, por exemplo. Mas isso é diferente de fazer cópia privada de uma obra (muitas vezes apenas para assisti-la em outra hora ou com fins educacionais, por exemplo) e bem diferente também do acesso. Há várias obras disponíveis na internet que simplesmente não podem ser acessadas de nenhuma outra forma. Há exemplos de filmes que não existem no Brasil em DVD, em VHS, em canais de TV a cabo nem de TV aberta. Então, não há motivo para esses filmes não serem acessados. A difusão de obras pela internet ajuda muito a distribuição de obras de autores mais jovens ou sem recursos e que de outra forma jamais seriam acessíveis ao grande público. A difusão também permite o acesso a obras raras, fora de circulação comercial. Além disso, permite o acesso a obras licitamente licenciadas por meio do Creative Commons.
O Creative Commons seria uma alternativa eficaz para “legalizar” a pirataria?
S.B. – O Creative Commons é um mecanismo de licenciamento segundo o qual o autor pode abrir mão de determinados direitos em favor da sociedade. É importante observarmos que é sempre o autor quem vai poder, originalmente, abrir mão desses direitos, e sempre na medida de sua vontade, sem que haja qualquer pessoa que o obrigue a licenciar sua obra. Uma vez que a obra está licenciada, pode ser acessada, baixada pela internet, gravada e distribuída gratuitamente sem qualquer problema. Claro que essa medida acaba por diminuir a cópia privada considerada ilícita, pois o autor autoriza a cópia da obra licenciada. O Creative Commons não é medida suficiente para acabar com a pirataria, pois o licenciamento da obra depende sempre da vontade do autor, mas é instrumento eficaz para fazer circular obras – audiovisuais ou não – pela internet sem que aja qualquer impedimento legal por parte de seus usuários.
“Popular não é sinônimo de torpeza”
Agosto 4, 2008 at 4:18 pm | In Imprensa popular | Leave a CommentTags: Alexandre Bach, Cyro Martins, Diário Gaúcho, Jornalismo popular
Leonardo Siqueira
Texto publicado originalmente no Canal da Imprensa e republicado no Observatório da Imprensa
Leitores satisfeitos. É assim que o Diário Gaúcho posiciona seu público, que o coloca entre os dez mais lidos do País. No gênero popular, é o segundo de maior circulação. Mas qual a receita de sucesso de um periódico que em apenas sete anos arrebatou um público que não estava acostumado a ler jornal?
O Canal entrevistou um de seus idealizadores, o diretor da Rede Gaúcha, Cyro Martins, e o atual editor-chefe do veículo, Alexandre Bach. Eles representam duas gestões diferentes, mas revelam que a participação dos leitores e a discussão de temas da agenda pública caracterizam a força do jornal. Martins enfatiza que o estigma de jornalismo sensacionalista é antiquado e sugere uma nova abordagem para a mídia quando o assunto são as publicações de apelo popular. Já o atual editor-chefe analisa que o apelo erótico e o modelo “espreme que sai sangue” foi deixado de lado pelos periódicos do gênero. ” Essa história de sangue e sexo, terneiro de duas cabeças, chupa-cabra serve apenas para diversão do pessoal aqui na Redação. Aqui no jornal esse tipo de brincadeira é até divertido. Agora achar que os jornais populares se resumem a isso é um erro grave”.
Alexandre Bach tem 41 anos e 20 de jornalismo . Atuou como repórter e editor do Zero Hora por um período de dez anos. Ele é o atual editor-chefe do Diário Gaúcho e participa do Máster em Jornalismo promovido pelo Centro de Extensão Universitária de São Paulo (CEU) em parceria com a Universidade de Navarra, na Espanha.
Cyro Martins começou a carreira como revisor no Correio do Povo e ficou lá até 1989. Além disso, atuou como editor assistente do Zero Hora e no mesmo jornal ocupou as funções de secretário de redação e editor-chefe. Foi um dos idealizadores do Diário Gaúcho e exerceu a função de editor-chefe do jornal de 2000 até 2004 Atualmente, Martins é diretor da Rede Gaúcha.
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Geralmente o jornalismo popular é associado ao conteúdo sensacionalista e polêmico de alguns veículos destinados ao público das classes B, C e D. Por que os periódicos desse gênero são vistos assim?
Cyro Martins – Por preconceito. Nas décadas de 50 a 90 eles foram calcados no tripé sangue-teratologia-sexo. Na década de 90, com a gradual mudança de O Dia, o surgimento do Extra e, mais significativo, o fechamento, em 2000, com melancólicos 20 mil exemplares de circulação, do famoso Notícias Populares – o emblemático representante dessa imprensa de baixo nível -, percebeu-se que popular não é sinônimo de torpeza. Se o pior entre eles fechava por falta de leitores, não era isso que os leitores queriam.
Alexandre Bach – Eles são vistos desta forma por quem não conhece bem o conteúdo dos populares. Se você fizer essa pergunta para os nossos leitores eles responderão de um jeito diferente.
A mídia retrata de maneira adequada a participação dos populares junto à sociedade?
C.M. – Não, na maior parte das vezes, não. Os principais populares de hoje, feitos dentro de preceitos que os consumam como jornais para toda a família, que não envergonham quem os faz, nem quem os lê, são internacionalmente reconhecidos como “light papers”, uma saída inteligentíssima para o problema da diminuição da leitura de jornais, principalmente entre os jovens e as mulheres das camadas menos favorecidas da população. E “internacionalmente” aqui significa “internacionalmente mesmo”. Mas são tratados, na maior parte das vezes, e, obviamente, por quem sequer os conhece (erro mortal para jornalistas) – como se fossem representantes da imprensa “popular” do tempo do NP. Sangue e sexo etc. Preconceito.
A.B. – Eu não vejo a mídia abordar muito a questão dos populares, algo recente no Brasil, pelo menos de uns dez anos pra cá. Os meios de comunicação discutem muito a realidade deles e por isso, a discussão sobre os populares, na minha avaliação, não é a maior preocupação da mídia.
Qual deveria ser a abordagem dos meios de comunicação em relação ao jornalismo popular?
C.M. – Reconhecer a importância de estarem estes jornais trazendo para o universo do mundo de leitores de jornais não apenas milhares, mas milhões de pessoas. Pessoas que são diariamente maltratadas pela sociedade, desde o horário em que são obrigadas a acordar para pegar um ônibus caindo aos pedaços e apinhado, para chegarem a tempo num emprego de baixíssimo salário, e que nestes novos populares começam a descobrir direitos que tinham e não sabiam. Ou que sabiam que tinham e não sabiam como acionar. Como me disse um líder da esquerda: “Vocês realizaram o sonho da esquerda, um jornal que o povo gosta de ler”.
O crescimento dos populares aponta uma mudança na lógica jornalística. Um texto mais leve, cores mais chamativas, editorias que permitam a participação do público. De que forma isso influencia a política editorial de um veículo?
C.M. – Um veículo deve ser guiado pela satisfação da necessidade de informação de seu público específico. Sei que o público dos atuais populares não está interessado na queda da Selic, mas no efeito que isso tem em seu orçamento doméstico. Tenho de inventar um modo de comunicar-lhe isso, e pode tanto ser o texto simples como uma história em quadrinhos colorida. Sei que o público dos atuais populares não está interessado nas intrigas palacianas, mas em como isso resultará, ou não, em rua asfaltada, esgoto, água encanada, transporte, escola, segurança. Explicar-lhe isso é o grande desafio que estes jornais têm diariamente. Não escrever para ser elogiado pelo chefe ou pelo colega ou para ser reconhecido pela concorrência, mas tão somente para fazer aquilo que é a função fundamental do jornalismo: informar bem o seu público.
A.B. – Eu não sei dizer ao certo a influência de tudo isso na política editorial de um veículo. Até porque cada meio de comunicação já tem essa linha editorial, em muitos casos, pré-estabelecida. A nossa maneira de falar, a nossa linguagem, no projeto gráfico que nós idealizamos, foi concebida a partir daquilo que queríamos fazer editorialmente. É o contrário. Não são essas características que moldam a maneira de se fazer jornalismo. Nós adaptamos a nossa política editorial conforme a comunicação que vamos estabelecer com o leitor.
Essa mudança implica a demanda de jornalistas capacitados para trabalhar com esse público.
C.M. – Certamente: “Médicos acham que são deuses: Jornalistas têm certeza”. Imagine o exercício que é desperdiçar toda a nossa pretensiosa genialidade em um texto que deve ser entendido pelo porteiro do edifício, pelo motorista do ônibus, pela empregada doméstica… e que não será elogiado por nenhum de nossos amigos? É o maior desafio que um jornalista – um que assim quiser se chamar – pode enfrentar. O jornalista do popular deve estar muito mais versado nas artes da comunicação do que aquele que escreve apenas para os de seu meio social.
O que muda na relação jornalista-fonte-leitor?
C.M. – O leitor enxerga no jornal popular seu paladino – o que dá ao jornalista a chance de exercer vez que outra um pouco daquele jornalismo romântico com o qual sonhávamos na faculdade. Quando o leitor bate à porta da redação, já teve várias portas batidas na sua cara, principalmente de órgãos públicos. O contato é direto, não há barreiras entre o leitor e a redação. Sua relação não é a mesma do leitor dos ditos “quality papers” com seus jornais: nos populares, eles são fãs, torcedores, amigos e chamam o jornal popular de “o meu jornal”. E assim o sentem. Quanto à questão da prática jornalística, os preceitos técnico-éticos são os mesmos e rígidos – ao menos na RBS – que guiam todos os veículos impressos da empresa.
A.B. – A gente lida com uma fonte que habitualmente não está acostumada a conceder entrevistas para os jornais tradicionais. O líder comunitário, o presidente de uma associação de bairro, geralmente não tem muito espaço nos jornais de referência ou tradicionais. É isso o que muda. Você continua utilizando fontes oficiais, mas essa esfera do oficialismo que ocupa um lugar importante nos jornais tradicionais não é o foco das publicações de apelo popular. Quer dizer, eles são responsáveis em passar a informação e defender aquilo que eles representam. Afinal, eles falam em nome de uma categoria, de um grupo organizado. E essa relação que você mencionou não é tão diferente assim em relação aos jornais de referência. Agora, é bem verdade que nós temos uma proximidade maior com o leitor. Até porque abordamos assuntos que dizem respeito ao cotidiano e à vida real deles.
No caso do Diário Gaúcho, o assistencialismo e a prestação de serviços são características fortes do veículo. Contudo, o serviço que o periódico presta à comunidade pode servir, inclusive, para promover o próprio jornal.
C.M. – Stálin dizia que a morte de uma pessoa não significava nada: mas a de um milhão era uma tragédia. Invertemos esta lógica perversa. O sofrimento de qualquer ser humano que estiver ao nosso alcance diminuir, com nossa ação jornalística, passa a ser dever. O que antes era condenado pela esquerda como “assistencialismo”, que pretensamente “atrasava a revolução”, foi absorvido com orgulho por nosso primeiro governo de esquerda, nos bolsas-família da vida e coisas do gênero. Mudou a esquerda ou mudou o mundo? Os novos jornais populares, como as ONGs, fazem o que está a seu alcance para, de forma meio anárquica (no bom sentido, o de “ação direta”, ou iniciativa espontânea, de “L´Ami du Peuple”), melhorar o mundo. Uma vida melhorada por dia é uma média e tanto.
A.B. – Aqui no Diário Gaúcho não há assistencialismo algum. O que fazemos aqui, em algumas situações, tem o desdobramento de uma mobilização que as pessoas fazem lá fora. Nós damos o espaço para esse tipo “mobilização”, mas sem nenhum envolvimento da parte do jornal. Algum tempo atrás aqui no Rio Grande do Sul descobrimos a história de um funcionário do Country Club, um campo de golfe da Grande Porto Alegre bastante freqüentado por empresários. O funcionário ganhava seiscentos reais por mês e encontrou uma carteira com dez mil dólares e a entregou ao dono. Mas o que aconteceu depois disso foi muito estranho: esse rapaz começou a ouvir chacotas por ter devolvido a carteira. Os moradores do local o chamavam de babaca, burro e isso o constrangeu muito. A esposa dele comentou isso com a gente e nós publicamos a história dele no jornal. A partir disso houve uma onda de solidariedade. Muita gente doou rancho, o sindicato dos construtores de Porto Alegre resolveu dar uma casa para ele… Mas em momento algum houve a nossa influência. Essa coisa do assistencialismo, na prática, não é comum para a gente. Contudo registramos a mobilização da comunidade e assim por diante. O assistencialismo que eu percebo, no contexto dessa camada menos favorecida da população, tem um caráter.
Em entrevista ao programa Argumentos da TV PUC o senhor (Cyro Martins) esclarece que o Diário Gaúcho jamais publicaria “páginas de sangue, aberrações, linguajar chulo e nudez ginecológica”. Isso quer dizer que o jornalismo “espreme que sai sangue” não agrada mais o leitor popular?
C.M. – Vide exemplo supracitado do Notícias Populares. Fechou por falta de leitores. Não existe nenhum veículo de comunicação que tenha fechado por ser bom. Fechou-se, não era bom. Pode ter sido, não era mais, e ser bom é simples: significa atender a necessidade de seu público. Logo, o público das classes menos favorecidas não quer sexo e sangue: quer informação útil e entretenimento sadio, a preço acessível.
A.B. – Quando o Cyro chegou aqui, estipulamos uma linha editorial – hoje ele é diretor da Rede Gaúcha, eu assumi o jornal – e essa linha não mudou nada. Esse tipo de linguajar que você mencionou jamais será publicado no nosso jornal. Você não consegue sustentar um jornal utilizando esse tipo de apelo. Essa história de colocar mulher pelada na capa não vende. Tem público para tudo, mas precisamos ver se esse público comporta um negócio desses ou que justifique um conteúdo parecido com isso. Os novos jornais populares que estão surgindo por aí abandonaram essa linha. Se você for analisar os jornais populares Brasil afora, como é o caso do Extra , no Rio de Janeiro ou o Agora em São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, vai ver que os atuais populares não tem nada a ver com essa linha sensacionalista. Quando começou essa onda de jornalismo popular há dez anos a coisa era diferente. A pessoa que pensa o jornalismo popular dessa forma é mal informada e preconceituosa. Os populares estão aí, aumentando a circulação de títulos no meio impresso. Se você vir dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC), dos dez maiores jornais do País, cinco são populares. Quem não considera isso que abordamos e ainda pensa dessa forma é burro. Essa história de sangue e sexo, terneiro de duas cabeças, chupa-cabra serve apenas para diversão do pessoal aqui na redação. Aqui no jornal esse tipo de brincadeira é até divertido. Agora achar que os jornais populares se resumem a isso é um erro grave.
Como o senhor avalia a discussão de temas da agenda social na cobertura dos populares?
C.M. – Ninguém os trata melhor. Apenas os populares, os bem-feitos, conseguem explicar ao cidadão de baixa escolaridade como seu voto se transforma, ou não, em transporte público decente, educação pública decente e saúde pública decente. E também, pelo gigantismo de seu público, terminam por pautar as autoridades, para que não fiquem divagando em lugares-comuns como “inclusão digital das classes populares”, algo ridiculamente cosmético quando faltam creches nas vilas para que as mães possam trabalhar e alimentar seus filhos.
A.B. – A discussão de temas da agenda pública deve ser do interesse de todo e qualquer veículo de comunicação. O que existem são esferas diferentes. A tarefa de fiscalizar o poder público é função de qualquer veículo da imprensa, não apenas dos populares. Nós, por exemplo, observamos muito o ocorre na prefeitura. É ela quem administra os postos de saúde, o ponto de ônibus, etc. É uma das coisas que mais gera pautas aqui na redação: a fiscalização do município. Além disso, observamos políticas aplicacionais do governo federal que é uma coisa importante também. O jornal tradicional vai abordar a política a partir do acontece em Brasília. É uma ótica um pouco diferente da nossa.
No gênero popular é o leitor quem denuncia e fiscaliza o poder público. E quem avalia a fala do leitor?
C.M. – Opa! O leitor é somente fonte de pautas. E pautas são hipóteses, comprováveis ou refutáveis. O jornalista continua sendo o responsável pelo publicado.
A.B. – O processo de edição é o mesmo de um veículo de comunicação qualquer. Quando um cidadão comum ou líder comunitário fala alguma coisa para a gente, da mesma maneira que um empresário passa uma informação para o Valor Econômico, por exemplo, o conteúdo será avaliado. A checagem é comum em qualquer veículo. Nós temos um canal aberto com o leitor mas isso não quer dizer que seremos irresponsáveis a ponto de publicar qualquer coisa. Nós avaliamos o conteúdo: isso é importante, aquilo não… Não raras vezes as pessoas que vêm aqui, tomadas pelo calor da discussão exageram algumas coisas, pintam o quadro com uma tinta muito forte.
É possível a fala popular tirar o foco de um problema social para os problemas do leitor? Quais os perigos em ouvir a opinião de um cidadão sobre determinado assunto em relação a um especialista?
C.M. – Nunca se colocariam tais opiniões em mesmo grau de importância. A diferença do jornal popular, o bem-feito, é que, em vez de fazer como os “quality papers”, que em meio a uma enxurrada de números incluem um ou dois “cases” ilustrativos, o jornal popular bem-feito usa um, dois ou mais “cases” para começar a matéria. Assim, com esses exemplos facilmente inteligíveis, é que ele irá explicar a enxurrada de números a seus leitores.
A.B. – Quando escrevemos sobre o postinho de saúde do bairro, por exemplo, entrevistamos além do cidadão comum, especialistas e fontes oficiais ou, no exemplo citado, o representante da saúde. Um depoimento muito importante é o do gerente do posto de saúde que fica lá na vila. Ele é quem vai dizer: o meu problema é esse, aqui falta tal e tal estudo, eu preciso de determinado antibiótico e assim por diante. Essa é uma avaliação importante. Ele também é um especialista, no “mundo” dele. Ah, a pessoa que não domina todos os conceitos da saúde pública não pode ser considerada especialista. Eu não sei se esse tipo de fonte seria tão necessário, dependendo da matéria. Eu não acho que a verdade ou o mais próximo dela esteja apenas na mão de “iluminados”. A verdade está muito mais próxima do que a gente imagina.
As pessoas que geralmente compram um jornal popular não têm o hábito da leitura. A maior parte delas tem uma baixa renda familiar e não está acostumada com a educação política ou econômica. Isso justifica a ausência dessas editorias nos populares?
C.M. – Primeiramente: não tinham o hábito de leitura. O Diário Gaúcho vende apenas em bancas e jornaleiros, sem assinaturas mais de 150 mil exemplares por dia, com uma audiência de mais de um milhão e 300 mil leitores. Isto é hábito de leitura implantado, tão implantado que a região da Grande Porto Alegre é hoje a região de maior índice de leitura de jornais do Brasil, superando liderança histórica da Grande Rio de Janeiro. E as editorias de política e economia estão lá: só que, como dito, explicando no seu bolso a taxa Selic e na sua vida a escolha que você faz na eleição. Em vez de servirem de palanque.
A.B. – Nós abordamos economia. Só que de um jeito diferente, não no estilo empresarial. Ela é aplicada mais ao dia-a-dia e ao bolso do leitor. Por exemplo, quando cai a taxa de juros: não tratamos de temas relacionados ao Banco Central, mas o impacto disso na economia doméstica. Trazemos o assunto da macro para a micro economia. A questão da política… Eu não sei. Vimos tantas coisas nos jornais. A gente dá muito espaço para as coisas que acontecem em Brasília. Tem gente que fala, ah, a ausência da discussão política aliena as pessoas. Não vamos estimular uma consciência política apenas abordando matérias desse tipo. A política do Renan Calheiros não faz falta para ninguém. Até porque esse escândalo não tem que sair nas páginas de política, mas na editoria de polícia. Já estamos planejando a cobertura das eleições do ano que vem em Porto Alegre. Uma das coisas que abordamos na cobertura das eleições é tratar da função que um prefeito exerce, o papel dos vereadores. Vereador pode prometer um aumento de salário? O prefeito pode inaugurar uma nova linha de ônibus no seu bairro? Para mim é mais importante discutir a função de um servidor público do que debater sobre a política partidária que está por trás de tudo isso.
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